Não quero te falar que te amo e que não sei como será daqui pra frente, eu nunca soube… Não quero te falar de como foi bom ser puxada do poço que criei pela tua mão quente e firme. Não quero te falar da nuvem que tem enevoado meus olhos cada vez que penso em ti. Não quero falar de amor, de dor, de perdas. Nem mesmo quero falar dessa carta que suponho ser a última que te escrevo, como supus tantas vezes antes. Vou me permitir alguma sinceridade, acho que esse quase nós merece. Eu te subestimei demais, subestimei demais a força que você tem mim, o pedaço meu que é teu, quanto do meu sorriso era tua culpa. Nao foi por mal meu bem, me entenda, superestimei pessoas, sonhos, livros, lugares, a morte, a vida, e tudo que me sobrou foi uma coleção de decepções e mágoas. Achei que se achasse que você era pouco em mim você seria. Achei errado, pelo visto. Vou sentir muita falta de você, e de quem eu sou quando estou contigo. Não digo que deixarei de te amar, nem que tentarei, já não acredito nesse tipo de coisa. Só vou seguir, com a certeza de que faço isso pro teu bem, e pra evitar minha ruína. Vou te procurar em outros corpos, mas isso não é novidade entre nós… Você me procurou tanto que esqueceu que procurava e achou alguém melhor. Aceito. Eu que sempre parto, dessa vez fico por ti e vejo de longe tua partida. Mais que justa, mais que esperta, mais que certa. Quero que seja muito feliz, mas não suporto não ser a causa da tua felicidade. No meu mundo egoísta você é meu e há alguma justiça no mundo e no amor. Eu queria não dormir, passar as noites te olhando descansar. Te sujar de qualquer coisa doce só pra depois ter que limpar. Eu queria ouvir teu violão, e te xingar, te bater entre crisos de riso, perguntando quem te deu autorização de ser tudo que eu quero e espero de alguém. Eu queria teu olhar de incompreensão pras minhas crises de choro sem motivo, e teu abraço apertado dizendo que ia passar. Nunca passa, você sabe, nunca passa, mas eu ia acreditar. Eu queria tua voz de sono de manhã. Eu queria te devolver o gol dedicado pra mim com um texto qualquer. Eu queria não precisar dizer ou provar que te amo… por já provar e dizer a cada beijo e sorriso. Eu queria acampar contigo, e inventar nomes pras constelações que não conhecemos. E riscar nosso nome nas pedras, na areia, nas nuvens, no vento, no tempo, riscar tua pele com meu cheiro. Eu queria tanto tudo disso, queria tanto, que escrever no passado dói, e é uma absurda mentira. Ainda quero, e como quero. Mas quero tanto, e te quero tanto bem, que abro mão desse querer. Por me salvar de mim há tanto tempo atrás de devolvo a gentileza, e agora te salvo de mim. Te livro do meu drama, da minha indecisão, das minhas fraquezas sem fim. Te livro das promessas que me fez, dos castelos de areia que não construímos, de tudo que não foi nem será. Te livro de mim.
- Autor desconhecido